Saltar a navegação

Arquivos por Categoria: História da Arte nos Meios de Comunicação

Conceituando o termo “interatividade”:

No âmbito midiático,

interatividade é uma medida do potencial de habilidade de uma mídia permitir que o usuário exerça influência sobre o conteúdo ou a forma da comunicação mediada. (Jensen, 1998)

No âmbito social,

interatividade consiste na relação entre duas ou mais pessoas que, em determinada situação, adaptam seus comportamentos e ações uns aos outros.(Jensen, 1998)

Transportando o conceito para o ambiente da arte, levanto um primeiro parecer que afirma que toda obra de arte é, pela própria natureza artística, interativa. Ela depende da interação entre obra, artista e receptor, e o signo da obra só faz sentido quando essa interação existe e se faz notar. Com o passar do tempo o artista passa a ter essa visão crítica do processo de recepção da arte e passa a produzi-la de forma muito mais consciente e calcada na interação.

As novas mídias, peneiradas com tudo que a tecnologia agrega no sentido de torná-las interativas, desenha aos poucos uma nova visão sobre a arte. Digo “aos poucos” pois me refiro a um processo contínuo, do qual estamos vislumbrando apenas o desenrolar dos primeiros atos e que, com o contínuo avanço tecnológico e comunicacional vivenciado nas últimas décadas, ainda tem muito que se desenvolver.

Agora, com os processos promovidos pela Interatividade tecnológica, na relação homem-máquina, postula-se a abertura de terceiro grau [para a arte]. Esta abertura, mediada por interfaces técnicas, coloca a intervenção da máquina como novo e decisivo agente de instauração estética, própria das Imagens de Terceira Geração. (Plaza, 2000)

O que caracteriza a interatividade é a possibilidade crescente de transformar os participantes do processo de comunicação em emissores e receptores, ao mesmo tempo, da mensagem.

A arte, nessa nova era das mídias interativas, já é construída pensando nas possibilidades desse novo cenário. Ela é criada visando algum tipo de interação com o espectador. Vemos nas exposições contemporâneas, obras de arte que brincam com a participação do visitante, criando ambientes convidativos e abertos à interação. Grandes instalações, painéis interativos, imagens e sons que são gerados ou se transformam de acordo com a ação do espectador – são apenas alguns exemplos do que a arte interativa começa a lançar mão nesse início de milênio. A internet e seus hiperlinks permite ainda um tipo mais avançado e ao mesmo tempo mais controlado de interatividade, posicionando o usuário como o membro assumidademente ativo na execução de uma obra de arte digital.

O artista com as redes inventa novos agrupamentos, coleta elementos, junta, separa justapõe, tenta dar uma nova ordem, coloca a luz sobre certos pontos, propõe novos jogos, cria metarregras, guiado por um objetivo: o trabalho artístico. O intercâmbio dinâmico em todos os seus estados constitui uma interface entre homens e imaginários. O artista se torna um tipo de poeta da conexão. (Prado, 1997)

A estética da arte na realidade interativa também se transforma. Ela é produzida por um novo tipo de “artista”, que hoje é rebatizado com nomes como designer, desenvolvedor, programador ou interator. Ela também se coloca em diferentes formatos (instalações físicas interativas, websites, cd-roms, interfaces sensíveis ao toque, áudio, vídeo, texto digital e hipertexto, entre outros) e com diferentes objetivos, o que garante uma rica multiplicidade de formas plásticas.

A arte em mídias digitais é dotada de certa plasticidade, tornando-se suscetível de modificação, de acordo com as interações do interator. (Arantes, 2005)

Sobre os caminhos futuros da interatividade na arte, afirma Julio Plaza:

As noções de interação, interatividade e multisensorialidade intersectam-se e retroalimentam as relações entre arte e tecnologia. A exploração destes dados perceptuais, cognitivos e interativos está começando. (Plaza, 2004)

Bibliografia:

  • SANTAELLA, Lúcia . Culturas e artes do pós-humano. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2003.
  • PRADO, Gilbertto. Dispositivos interativos: imagens em redes telemáticas. In: Arte do século XXI: A humanização das tecnologias. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. Pg 295 – 302.
  • JENSEN, J. F. Interactivity: Tracing a new concept in media and communication studies. vol. 19. Nordicom Review. 1998. pp. 185–204.
  • PLAZA, Júlio. Arte e Interatividade: Autor – Obra – Recepção. Disponível em: http://wawrwt.iar.unicamp.br/textos/texto26.htm. Acesso em 31 agosto de 2004.
  • ARANTES, P. A. C. . Arte e mídia no Brasil: pesrpectivas da estética digital. ARS (USP), v. 3, p. 52-66, 2005.

Fiz algumas anotações sobre alguns conceitos:

  • Relação Forma/Função e Programação/Projeto. A forma passa a se adaptar à função designada a determinado objeto. A própria evolução dos objetos é feita, quase sempre, priorizando a função e consequentemente o melhor uso do mesmo.
  • Imaginação/Ideologia. A ideologia segue em busca de legitimação ou reforço de um poder, enquanto o imaginário independe desse objetivo, seguindo livre e podendo ou não ser usado pela ideologia para que ela cumpra seu papel.
  • Desenho Industrial e Bauhaus. O Bauhaus foi o ponto de partida para o desenho industrial se configurar como o conhecemos hoje, e nele foi iniciada a linha de raciocínio forma/função – tanto que dele se origina a lógica da produção em série no modelo industrial que é usado até hoje.
  • Expressionismo Abstrato, Tachismo, Minimalismo e Arte Povera. O Expressionismo Abstrato entrou em voga no momento pós-guerra, em uma Europa enfraquecida culturalmente e receptiva à produção norte-americana. Em resposta, a França é berço do Tachismo, movimento das manchas e das pinceladas mais espontâneas. Outros dois movimentos surgem desafiando a arte que estava em evidência: o Minimalismo, que buscava eliminar o excesso de informações na arte e valorizar apenas o que era essencial para transmitir a mensagem; e a Arte Povera, que caminhava contra a elitização da arte e buscava nos objetos comuns sua matéria-prima.

E levanto a discussão:

Será que o raciocínio Bauhaus, orientado ao desenho industrial que prioriza a função e a produção em série, ainda é seguido à risca hoje?

Vejo todos os dias novas invenções (ou releituras de invenções já passadas) que priorizam a forma, a estética e a diferenciação, sem necessariamente promover avanços na função.

Será que não atingimos um ponto de equilíbrio onde conseguimos agora seguir pelos dois caminhos, propondo evoluções tanto na forma como na função dos objetos – cada qual a seu tempo e ritmo?

Penso que a função de um objeto, uma vez aprendida, passa ao estado de conhecimento acumulado, naturalmente legado nas novas formas que se desenvolvem a partir da original. Um bule, por exemplo, tem uma função específica de servir um líquido em um copo, e essa função já foi aprendida e assimilada pela sociedade e pelos “desenvolvedores de bules”. Dessa forma, com esse conhecimento previamente adquirido, os novos bules que são criados conseguem seguir em busca de novas formas, cores, tamanhos e formatos sem perder de vista a referência funcional e tudo o que se sabe sobre ela. O conhecimento da função dá liberdade para a criatividade da forma.

A frase da Christine sintetiza bem a relação.

Essa nova perspectiva ao mesmo tempo que aniquila a aura da obra de arte liberta o artista, deixando o livre para explorar a novas formas de expressão.

O advento da reprodutibilidade técnica implicou na perda progressiva da aura da obra de arte e de seu caráter ritual, o que em primeira instância pode parecer um ponto apenas negativo para a arte vigente na época. Mas, ao mesmo tempo, permitiu menor preocupação com a questão técnica da reprodução e maior acesso do público (e dos próprios artistas) aos objetos de arte. Já não há tanta preocupação com o perfeccionismo clássico da arte, e o artista passa a ter mais liberdade para buscar novas formas, novos métodos e novas construções.

Tal liberdade pode ser vista nos movimentos artísticos vindouros, como o impressionismo, o neo-impressionismo e o pontilhismo. O que passa a contar é a impressão, a forma como o que é retratado afeta o artista e é filtrado por sua subjetividade.

Interessante como a técnica do pontilhismo desconstrói a cor como a percebemos à primeira vista. O artista passa a estudar o funcionamento da cor no momento em que ela chega à retina humana, e daí sua profunda relação com a ciência. Ele não é apenas um reprodutor daquilo que ele mesmo enxerga; sua arte passa a ser projetada de forma consciente para outras retinas. Nessa nova realidade digital esses pequenos pontos podem ser comparados com os pixels, unidades ínfimas de cor e luz que, reunidas, produzem impressões e sensações no receptor.

A contemporaneidade do texto de Benjamin realmente surpreende. Mais de setenta anos depois, ainda passamos por esse constante processo de adaptação às novas tecnologias e precisamos aprender a lidar com elas (não só passivamente, mas ativamente, criando arte nesse novo cenário digital). E assim ad infinitum, arrisco.

Organizando um pouco as idéias:

Reprodutibilidade Técnica. Capacidade de reproduzir obras de arte em larga escala. Fator marcante na história da arte. A arte passa a estar acessível a mais observadores, e de formas diferentes. – Autenticidade Característica da obra original que se mantém mesmo com o advento da reprodutibilidade. Valor artístico e técnico de uma obra, banhada no contexto histórico de sua origem.

Aura, Valor de Culto e Valor de Exposição. Conteúdo de uma obra de arte quando avaliado em seu fator histórico, social e cultural. Verdade de uma obra. Culto.

Fotografia. Com a fotografia não há mais a preocupação com a reprodução técnica de uma obra. A reprodução se torna mais fácil, mais escalonável, mais ampla.

Valor de eternidade. A obra de arte enquanto acontecimento histórico, que se eterniza pelo papel desempenhado na época de sua criação. E a reprodutibilidade técnica é grande aliada nesse processo de eternização.

Fotografia e cinema como arte. Inicialmente não considerados arte, mas com o tempo legitimados como propagadores da própria arte.

Exposição perante a massa. Primeiro sintoma da crise da pintura. Na era da reprodutibilidade técnica, a arte começou a ter a pretensão de se dirigir às massas.

Recepção tátil e Recepção ótica. Diferentes formas de receber a arte. Tátil é aquela que está sujeita à interpretação física, palpável, de olhar presente e atuante. É a recepção do hábito. A recepção ótica, da fotografia e do cinema, é guiada por um olhar controlado, dirigido. O receptor é um “examinador distraído”, passivo.

Quanto ao visual: enquanto o impressionismo de Degas se utiliza de pinceladas mais intensas e cores mais vivas, Gericault segue em uma linha mais neutra e sóbria.

Quanto ao conteúdo: Degas retrata cenas reais, possíveis, estáveis, enquanto Gericault busca expressões mais intensas, que ultrapassam a realidade. A cena dos cavalos é o exemplo perfeito dessa intensidade de Gericault: a fim de retratar a voracidade da corrida e o heroísmo dos cavaleiros, desprende-se da realidade e desenha cavalos em posições fisicamente improváveis.

Quanto ao estilo: não só nas obras dadas como exemplo, mas em outras obras dos dois artistas também são visíveis as diferenças entre eles. Gericault opta por um caminho mais hiperbólico, retratando cenas carregas de energia e intenção. Degas busca retratos cotidianos e prima por cenas autênticas, sem poses exacerbadas.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.