Análise de obras de arte executadas dentro do navegador de internet.
A obra de arte e a reprodutibilidade técnica
Muito se fala das mudanças no conceito de obra de arte a partir do momento, em meados do século XX, em que ela passou a ser reproduzida em larga escala, através das diversas técnicas de reprodução que vieram a se tornar disponíveis em no decorrer dos anos. O advento da fotografia, da imprensa, do cinema, do rádio, da televisão e da internet permitiram que o objeto artístico não mais fosse visto apenas em museus, galerias de arte e locais públicos e controlados.
Hoje podemos, com uma simples busca no Google, encontrar centenas de versões de Monalisa, pintura de Leonardo da Vinci datada do Renascimento europeu. O mais curioso é que são tantas as versões, tamanhos e variações de cor e tema encontrados na internet, que um usuário desavisado tem dificuldades em saber qual dessas variações mais se aproxima da obra real. Até que ponto um quadro mantém sua autenticidade original a partir do momento em que é fotocopiado e reproduzido em diferentes mídias, locais e épocas diferentes?
Walter Benjamin denomina este atributo da autenticidade de “aura”, e defende que essa autenticidade é, de certa forma, perdida quando a obra é reproduzida. Segundo Benjamin, a autenticidade de uma obra se constitui principalmente no seu elemento ”do aqui e do agora”, ou seja, sua experiência individual, vivida somente por ela durante um contexto histórico, sociológico e cultural único.
“…o objeto reproduzido é uma obra de arte e a reprodução não o é , pois o desempenho do fotógrafo manejando sua objetiva tem tão pouco a ver com a arte como o de um maestro regendo uma orquestra sinfônica: na melhor das hipóteses é um desempenho artístico.”1
A partir da metade do século, os artistas começam a antecipar tendências relacionadas ao uso da tecnologia na produção e reprodução das obras. Segundo Julio Plaza:
“É a partir dos anos cinqüenta que se constituem, no campo da arte, tendências que traduzem e antecipam as mudanças produzidas pelas tecnologias.”2
“Na década de cinqüenta, Max Bense dá início à chamada Estética Gerativa como arte criada a partir de processos aleatórios, que se utilizam do computador para gerar imagens que são produtos das relações ordem/desordem de um dado repertório e simulam processos relacionados à criatividade, ao pensamento visual e também aos processos naturais de crescimento.”2
A partir de então, vemos a adoção gradual da tecnologia no objeto artístico, seja fazendo do uso da tecnologia uma arte em si mesma (a fotografia e o cinema passam a ser considerados arte, por exemplo), seja explorando os recursos possibilitados pelas novas tecnologias na criação da obra de arte (uso de fotografia para a criação de colagens e obras de arte reproduzidas em larga escala). Começam a aparecer as instalações artísticas interativas, onde o próprio espectador passa a influir no conteúdo ou na forma da obra. O nome espectador torna-se obsoleto, configurando um novo papel de interator para este tipo de obra.
É importante, no entanto, lembrar da diferença do conceito de interator para o de co-autor. O autor da obra continua sendo aquele concebe o produto artístico, enquanto o interator é aquele que influencia na forma como essa obra é exibida. Vicente Gosciola, em seu estudo “Roteiro para as Novas Mídias”, ajuda a entender essa diferença:
“É Janet Murray quem alerta para o emprego incorreto do conceito de interator, pelo qual alguns teóricos estendem a interpretação para co-autor, mas que, na verdade, o interator seria aquele que improvisa os caminhos determinados pelo autor e pelas obras das novas mídias.”3
As possibilidades técnicas então se ampliam e fazem surgir novos formatos de obra que até então nunca haviam sido usados no âmbito artístico. Segundo Plaza:
“O termo arte interativa expande-se no começo dos anos 90 com a aparição das tecnologias apropriadas, ligadas ao cabo telefônico, expostas em inúmeras feiras e exposições de arte, de tecnologia eletrônica (Faust, França; Imagina, Mônaco, Siggraph, EUA, entre muitas outras) e eventos relacionados ao videotexto, fax- slow scan e outros meios.”2
Para Jurgen Claus, a arte tecnológica permite uma nova etapa qualitativa na arte, comparável àquela da introdução da tela na pintura (no âmbito econômico, social e criativo).
A arte na internet
A evolução no uso da tecnologia e do conceito de interatividade na produção artística das últimas décadas culminou em uma categoria de obras de arte que passaram a ser concebidas, visitadas e reproduzidas dentro da própria internet, fazendo uso das possibilidades do meio para tornarem-se atrativas a seu público. Como afirma Julio Plaza:
“As primeiras obras efetuadas com o computador obedecem ao conceito de “arte permutacional” e são, na sua grande maioria, não-figurativas. Este conceito ou síntese teórica exposta por A. Moles no seu Manifesto da arte permutacional revela a noção de permutação poética, ou plástica, caracterizada pela consciência do jogo e de suas regras para a exploração do “campo dos possíveis”. Para Moles “A arte permutacional está inscrita qual marca de água na era tecnológica.”2
Ainda sobre este tipo de arte interativa:
“Pensar a arte interativa dentro do contexto das Novas Tecnologias da Comunicação, como uma nova categoria de arte, requer um mergulho na história recente, à vista da expansão das noções de arte, de criação e também de estética. Além disso, no decorrer deste século, verifica-se um deslocamento das funções instauradoras (a poética do artista) para as funções da sensibilidade receptora (estética), o que produz no meio artístico uma grande confusão conceitual caracterizada, ainda, pela mistura e hibridação de gêneros, poéticas e atitudes artísticas.”2
Uma das características mais marcantes deste tipo de obra é a possibilidade de intervenção dos interatores naquilo que é exposto aos sentidos. O advento da web 2.0 enquanto ferramenta de colaboração e popularização do conteúdo gerado pelos usuários serviu para acelerar e intensificar o surgimento de obras que já nascem com esse conceito colaborativo. Resgatando a origem da colaboração na obra de arte, Eduardo Kac escreve em seu artigo “Aspectos da estética das telecomunicações”:
“Duchamp já afirmara que “é o espectador que faz a obra” e, “a arte nada tem a ver com democracia”, o que indica uma preocupação com a recepção. Anteriormente, Isidore Ducasse, conde de Lautréamont escreveu: “a poesia deve ser feita por todos, não por um”. Para os simbolistas, o princípio estético da sugestão era fundamental. Mallarmé: “Nomear um objeto é suprimir três quartas partes do gozo de um poema”. E Paul Valéry: “Não há um verdadeiro sentido para um texto”. Para L. Ferrara1 “A participação do receptor – aviltada, desejada, repelida, solicitada, estimulada, exigida – é tônica que perpassa os manifestos da arte moderna em todos os seus momentos e caracteriza a necessidade de justificar a sua especificidade”.”4
O caráter hipertextual possibilitado pela internet (uso de hiperlinks em textos, imagens e vídeos) ajudou a multiplicar as possibilidades do conteúdo da obra, relacionando assuntos, elementos e formas que eram impossíveis no mundo físico. As obras passam a conter hiperlinks que são acionados pelos interatores, em uma infinidade de opções de navegação e exploração da arte, como afirma Plaza.
“Para Mikhail Bakhtin, a primeira condição da intertextualidade é que as obras se dêem por inacabadas, isto é, que permitam e peçam para ser prosseguidas. O inacabamento de princípio e a abertura dialógica são sinônimos.”2
“Em pleno cyberspace, todos somos produtores-consumidores; ou seja, está indo solenemente por água abaixo a velha e renitente distinção entre quem faz e quem frui. Na chamada “textualidade interativa”, o que é operativo é a poética da obra aberta em campo eletrônico digital. Para Risério, o que está em questão é todo o eixo autor-obra-receptor, não a dissolução do “autor”. O autor providencia o espaço, a cartografia, mas cabe ao usuário traçar o seu percurso. Nada autoriza a dizer (parodiando Mc-Luhan) que, assim como Gutemberg nos transformou a todos em leitores e a fotocopiadora nos converteu em editores, o computador pessoal está fazendo com que todos sejamos autores.”2
“Entretanto, para Popper, o termo “interatividade” como instrumento de criação artística, em um contexto estético, pode ser aplicado tanto às relações entre artista e obra como relativo à realização, ou mesmo à relação entre obra acabada e espectador, já que as intenções estéticas do artista são inseparáveis de uma consciência clara dos processos técnicos utilizados.”2
O artista passa a se apropriar da tecnologia ao propor novas estéticas para a obra, usando materiais que fogem do mundo real e passam a pertencer ao mundo dos símbolos construídos pela informática. Segundo Plaza:
“Francis Heylighen desenvolve o conceito de hipermídia “distribuída” como síntese de três fatores: o documento é marcado por referências cruzadas, os hotlinks; a informação do documento pode advir de qualquer mídia; e acrescenta a distributividade, já que esse documento pode estar em várias partes do mundo.”2
Muito se questionou (e questiona) do valor artístico desse tipo de obra enraizada nos meios interativos. A ruptura do padrão de obra de arte que se tinha até então foi tão grande e acelerado, que o próprio pensamento humano sofre ranhuras ao tentar se adequar à revolução tecnológica da obra de arte. Ainda segundo Plaza:
“As relações entre arte e tecnologia, com seu caráter progressivo, aceleram-se com as novas configurações computacionais, mas é na exposição “Cybernetic Serendipity” (Londres, 1968), organizada por Max Bense e Jasia Reichardt, que se expõem, pela primeira vez, obras criadas com a ajuda do computador e onde se abre a polêmica: “pode o computador criar obras de arte?”; as “obras criadas com a ajuda da informática possuem um valor estético?”.”2
Exemplos de obra interativas e análise
Seguem três exemplos de obras de arte criadas para a internet e que possuem características bastante diferentes quando à forma de utilização dos atributos interativos do meio.
A primeira delas é o trabalho fotográfico We Are All Gonna Die, criado pelo fotógrafo Simon Hoegsberg e publicado em seu site: http://www.simonhoegsberg.com/we_are_all_gonna_die/slider.html.
A obra contém uma grande fotografia, e sua interface, criada para browsers de internet, permite que o usuário percorra toda a envergadura da foto e atente aos detalhes de cada um dos personagens fotografados. É interessante pensar que essa mesma obra poderia ter sido impressa em um grande painel físico e que, ao invés de arrastarem a barra de rolagem do site, os visitantes poderiam andar pelo espaço para ver com atenção os detalhes de cada área da foto. Mas a própria concepção da obra já tem em vista os atributos do ambiente digital e a possibilidade de interação dos visitantes da obra. Observo aqui alguns fatores importantes da obra:
- Experiência personalizada: cada usuário que visita o site é livre para ver o detalhe da foto que mais lhe interessa, pelo tempo que ele acha necessário.
- Reprodutibilidade: a obra é reproduzida cada vez que um usuário acessa o site. Os dados são então transferidos via internet para a máquina do usuário e exibidas no navegador.
- Abrangência geográfica: a obra pode ser acessada de qualquer lugar do mundo onde haja um computador com browser compatível com os protocolos http.
A segunda obra escolhida é a interface musical Tone Matrix, que pode ser vista no seguinte endereço: http://lab.andre-michelle.com/tonematrix
Trata-se de uma interface quadriculada que gera diferentes sons à medida em que pontos luminosos brancos são posicionados no grid com o clique do mouse. A escala horizontal do quadro representa o tempo musical, enquanto a escala vertical representa o timbre reproduzido. Novas características podem ser observadas nesta obra:
- Intervenção do interator na obra: a obra foi concebida com o único propósito das pessoas interagirem com ela. Sem interação, a obra não chega às vias de existir.
- Múltiplas possibilidades: cada usuário pode criar a combinação de pontos luminosos que mais lhe agrada ou desagrada, e testar variações desse grid com mais alguns cliques.
- Sinestesia: o visual da obra equivale ao produto sonoro emitido por ela. Essa associação cognitiva entre som e imagem é um dos pontos fortes da obra de arte criada para a internet.
A terceira e última obra analisada é a Stripes, experimento visual que pode ser visto no seguinte endereço: http://blogoscoped.com/files/stripes.html
Nela, o usuário arrasta linhas verticais paralelas sobre um desenho até então abstrato sobre uma tela branca. À medida em que as linhas são arrastadas horizontalmente, uma animação de uma onça correndo pode ser vista na tela do navegador. Trata-se de uma ilusão de ótica simples, já experimentada por outros artistas no mundo físico, mas agora transportada para o mundo virtual e para a internet. Pontos a serem observados:
- Controle sobre a obra: a velocidade com que o animal se movimenta na tela depende diretamente da velocidade em que o mouse é movido pela superfície virtual da tela branca. O usuário tem o controle dessa velocidade, e mesmo do momento de início e de término da experiência.
- Ilusão de ótica: recurso muito experimentado em outros meios, a ilusão de ótica fascina por surpreender o usuário no momento em que o fenômeno é atingido. A internet trouxe novos experimentos desse tipo, inclusive alguns só possíveis pela existência de pixels luminosos característicos da tela do computador.
“Desta maneira uma nova possibilidade de atuação dos usuários é desencadeada por uma estética resultante da sinergia de elementos não formais, tais como a coexistência em espaços virtuais e reais, sincronicidade de ações, controle remoto em tempo real, operação de telerobôs e observação remota, de forma colaborativa através da rede.”5
Considerações finais
Este artigo trata de um estudo não-conclusivo sobre a experimentação da obra de arte no navegador. É possível, no entanto, observar a existência de algumas características muito específicas deste meio na concepção e reprodução da obra de arte.
Vemos cada vez mais manifestações artísticas sendo publicadas na web e precisamos, de tempos em tempos, resgatar um pouco da história da arte e das origens da produção artística para que possamos destacar as características mais visíveis desse tipo de arte.
Referências bibliográficas
Citadas:
1. Fichamento sobre BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica.
2. PLAZA, Julio. Arte e interatividade: autor-obra-recepção.
3. GOSCIOLA, Vicente. Roteiro para as novas mídias.
4. KAC, Eduardo. Aspectos da estética das telecomunicações.
5. DONATI, Luisa Paraguai e PRADO, Gilbertto. Utilizações artísticas de imagens em direto
zações artísticas de imagens em direto na world wide web.
Não-citada:
ARANTES, Priscila. Arte e mídia no Brasil: perspectivas da estética digital.
