Saltar a navegação

Arquivos por Categoria: Cultura Contemporânea

O que penso:

Sempre gostei dos dois estilos cinematográficos, e confesso que já algumas vezes enumerei mentalmente as diferenças entre eles. Quando assisto a uma ficção estou muito mais propenso a admirar elementos artísticos da obra (fotografia, trilha-sonora, roteiro, atuação) e deixar prevalecer o lado emotivo. Quando assisto a um documentário a ótica muda. Procuro me atentar aos dados reais e buscar ligações com a veracidade das cenas e com outros fatos históricos que ocorreram na mesma época ou contexto.

A diferença entre um gênero e outro, que normalmente é iniciada na intenção de cada um, culmina em diferenças no resultado final, no produto que vemos e ouvimos. E o caminho da história do cinema foi preenchida com ótimos exemplos de um grupo e de outro.

Penso também o quanto esses dois universos conseguem se aproximar em alguns casos: quando o documentário se utiliza de técnicas ficcionais e quando a ficção está compromissada com procedimentos documentais. Observei em alguns filmes nacionais recentes a tendência em se basear na linguagem documental para produzir ficção: Última Parada 174, é um bom exemplo. Transporta para a linguagem ficcional o documentário Ônibus 174, tratando do mesmo tema com outra abordagem. Outro bom exemplo: O Equilibrista, que conta a história de um homem que sonhou atravessar prédios famosos andando no meio-fio. Apesar de uma história verídica, o documentário vem carregado de recursos ficcionais e acompanhado de um roteiro quase fantasioso. Quando esses dois mundos se encontram, então minha reação (enquanto espectador) é outra – a realidade do documentário acaba intensificando a emoção despertada pelo tom ficcional da obra.

Talvez o cinema contemporâneo esteja aprendendo a se apropriar dessas duas linguagens para produzir grandes obras ao mesmo tempo documentais e ficcionais (por mais paradoxal que possa parecer).

Ao mesmo tempo em que a fotografia permitiu a representação mais realista de determinada cena, com o tempo passou para a mão do fotógrafo a interpretação primeira daquilo que será fotografado. Digo “com o tempo” pois foi aos poucos que essa subjetividade foi sendo percebida e se tornando poderosa. A lente é objetiva, mas as outras decisões ficam a cargo do fotógrafo (ângulo, enquadramento, exposição, tempo de abertura da lente, proximidade, quantidade de luz, foco, visibilidade dos planos).

Essa subjetividade manipula aquilo que vemos e a forma como interpretamos a fotografia. Transportada para veículos de comunicação em massa, uma simples fotografia pode mudar a opinião de uma nação a respeito de determinado candidato político ou celebridade, por exemplo. Cabe ao receptor saber filtrar o que é visto. Nas palavras de Burke: “o uso crescente de fotografias e outras imagens como fontes históricas pode enriquecer muito nosso conhecimento e nossa compreensão do passado, desde que possamos desenvolver técnicas de ‘crítica da fonte’ semelhantes às que foram desenvolvidas há muito tempo para avaliar depoimentos escritos.”

A imagem videográfica está plugada no estilo de vida contemporâneo de forma irremediável. Durante o dia temos acesso a tantas imagens sobrepostas que acabamos naturalmente ignorando algumas delas. Penso que seja um mecanismo de autodefesa do cérebro contra o excesso de informação, de filtrar todas as imagens que têm visualidade e atribuir a apenas algumas delas a visibilidade – de acordo com sua relevância ao sujeito. Quantas vezes já não ignoramos completamente alguma coisa que vimos e que só depois percebemos que estava ali?

O exemplo do vídeo dos jogadores de basquete é meu preferido:

Penso muito no cinema, na música e em outros formatos que só fazem sentido quando há a possibilidade de reprodução em larga escala. Não há essa mesma relação de aura e unicidade entre a obra original e a peça reproduzida, já que elas são idênticas e em alguns casos se confundem. Não há o caráter privado da obra de arte clássica, tampouco seu cunho ritual e restrito.

Uma música, por exemplo. É criada por um artista com um conteúdo, uma intenção e uma característica técnica específicos. Mas ela pode ser reproduzida em diferentes contextos, ambientes, situações, datas, países, culturas e veículos, sofrendo pequenas mutações a cada nova reprodução. O próprio equipamento que a reproduz pode influenciar na maneira como é recebida: um fone de ouvido, uma caixa de som ou um show ao vivo. Mas todas remetem à obra original e ao contexto em que foi produzida. A obra de arte passa a ser plural, relativa, instantânea (não no sentido de efêmera, mas de ser influenciada pelo instante em que é reproduzida).

Como afirma Benjamin, nessa nova relação construída na contemporaneidade, as massas exigem que a obra de arte possa ser reproduzida e se torne próxima – e acabam depreciando aquilo que só é dado uma única vez.

Dr. Fantástico

O filme traz uma crítica à dominação política e ao uso desenfreado das novas tecnologias e da produção bélica. A própria construção dos personagens foi feita de forma a enaltecer essa crítica. A sátira mostra pessoas despreparadas para a relação entre homem e tecnologia que ainda estava em fase de construção e de pouco amadurecimento. A crítica é atemporal pois ainda hoje vemos essa relação funcionando de forma similar.

Há alguns anos ainda vivíamos em uma sociedade em que dominavam os veículos de massa que detinham a informação. E arrisco dizer que essa relação ainda se mantenha viva, embora esteja agora pulverizada em um número muito maior de membros e disseminadores. A capacidade da internet de criar pequenos veículos replicadores de informação diminuiu a massividade dessa relação, mas vemos que as divergências agora se manifestam no caráter crítico de quem recebe essa informação. As fontes são menos confiáveis, e é pequena a parcela da sociedade com habilidade cognitiva de distinguir as (pequenas) manipulações da realidade. Convivemos com esse argumento de Adorno de que existe, sim, a manipulação da realidade, mas agora é o excesso de informações (e não a restrição a ela) que acaba anestesiando as pessoas e dificultando seu discernimento, julgamento e decisão. E a relação entre mídia e consumismo se acentuou com o passar dos anos. Ficou mais sutil, mais inteligente – mas não menos poderosa.

A política eleitoral pode ser vista como um verdadeiro make over da vídeo-política, e é nela que os candidatos resgatam muito do que foi vivenciado desse jornalismo político ao longo dos anos. Achei interessante a relação entre a propaganda política e os processos propostos por Beatriz Sarlo. A propaganda política permite resgatar fatos históricos e aumentar a longevidade dos acontecimentos (tentando driblar o quinto processo) e enfraquece a noção de imediação proposta pela vídeo-política (segundo processo), já que assume o caráter de propaganda e inevitavelmente transparece manipular os fatos. Ao mesmo tempo, se utiliza do discurso simplista e da linguagem popular (quarto processo), já que é voltado a indivíduos leigos e que não acompanham os movimentos políticos na velocidade proposta pela vídeo-política. Interessante como a propaganda se desdobra para criar sua própria versão dos fatos.

Na web política essa manipulação fica menos visível. Vejamos o exemplo da campanha política de Barack Obama para a presidência dos EUA. Apesar de ter utilizado tanta propaganda como qualquer outra campanha política (ou até mais), na web essa manipulação se fez menos visível. A interatividade e as redes sociais de certa forma legitimam as propagandas implícitas, já que elas são endossadas por cidadãos (usuários) comuns. Nesse caso, a impressão democrática da qual a web política se apropria funcionou como um amenizador do caráter propagandista de sua campanha eleitoral.

(…)

Uma imagem pode ser o corpo de um objeto ausente quando associamos tal imagem a determinado momento, pessoa, sensação, lugar, estado de espírito ou outra lembrança que esteja localizada em outro ponto que não no corpo físico da imagem. Uma fotografia de uma festa de aniversário, por exemplo, é capaz de carregar as pessoas que nela aparecem, a data do aniversário, o estado de espírito dos personagens, o contexto social e cultural que aquelas pessoas viviam, lembranças subjetivas de seus integrantes e até a luz emitida pelo flash no momento da foto – tudo sem precisar conter fisicamente nada do que foi citado.

O conteúdo físico é o objeto que carrega tais memórias – uma fotografia, uma pintura, um pôster de filme. E não necessariamente um objeto palpável: pode ser um filme, uma projeção, um ruído. O conteúdo psíquico é o conjunto de provocações que a imagem gera na imaginação; esse pacote de sensações despertadas no momento em que a imagem chega até alguém.

Gosto do exemplo dado pelos colegas dos avatares das comunidades virtuais com as quais interagimos diariamente. São representações daquilo que somos ou que projetamos ser; são memórias de nós mesmos que utilizamos para reforçar nossa presença nos momentos de ausência física. E o curioso é que nessas comunidades temos a sensação de controle sobre como nossa imagem chegará às outras pessoas. O que na verdade, penso eu, é uma sensação falsa – já que essa mesma imagem que pensamos controlar está sujeita às interpretações subjetivas de quem nos olha, interage, adiciona ou tecla por aí.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.