O que penso:
Sempre gostei dos dois estilos cinematográficos, e confesso que já algumas vezes enumerei mentalmente as diferenças entre eles. Quando assisto a uma ficção estou muito mais propenso a admirar elementos artísticos da obra (fotografia, trilha-sonora, roteiro, atuação) e deixar prevalecer o lado emotivo. Quando assisto a um documentário a ótica muda. Procuro me atentar aos dados reais e buscar ligações com a veracidade das cenas e com outros fatos históricos que ocorreram na mesma época ou contexto.
A diferença entre um gênero e outro, que normalmente é iniciada na intenção de cada um, culmina em diferenças no resultado final, no produto que vemos e ouvimos. E o caminho da história do cinema foi preenchida com ótimos exemplos de um grupo e de outro.
Penso também o quanto esses dois universos conseguem se aproximar em alguns casos: quando o documentário se utiliza de técnicas ficcionais e quando a ficção está compromissada com procedimentos documentais. Observei em alguns filmes nacionais recentes a tendência em se basear na linguagem documental para produzir ficção: Última Parada 174, é um bom exemplo. Transporta para a linguagem ficcional o documentário Ônibus 174, tratando do mesmo tema com outra abordagem. Outro bom exemplo: O Equilibrista, que conta a história de um homem que sonhou atravessar prédios famosos andando no meio-fio. Apesar de uma história verídica, o documentário vem carregado de recursos ficcionais e acompanhado de um roteiro quase fantasioso. Quando esses dois mundos se encontram, então minha reação (enquanto espectador) é outra – a realidade do documentário acaba intensificando a emoção despertada pelo tom ficcional da obra.
Talvez o cinema contemporâneo esteja aprendendo a se apropriar dessas duas linguagens para produzir grandes obras ao mesmo tempo documentais e ficcionais (por mais paradoxal que possa parecer).