O espaço e o tempo nesse novo cenário virtual
As coisas estão mudando. Sabemos que a possibilidade da fotografia e da reprodução fotográfica foi um marco muito grande na construção do espaço e do tempo no imaginário da sociedade moderna. Com ela torna-se possível representar os espaços com fidelidade e reduzir intervalos de tempo ao mais próximo que se pode considerar do zero. Até então, cabiam aos artistas a constante busca pela representação da realidade e pela superação técnica visando o perfeccionismo realista. A novidade que ela representou (e por “novidade” quero enfatizar “o advento do novo”) foi essencial para a construção de novas linguagens comunicacionais, para a potencializaão da produção cultural humana e para a própria relação do homem de aceitação de seu espaço e de seu tempo. A facilidade de revisitar lugares apenas com o olhar e de congelar momentos passados em fotografias muda bruscamente a dinâmica do ser humano com as ciências, a arte e com os outros seres humanos.
Mas a realidade muda novamente a partir do momento em que temos meios interativos e virtuais sendo construídos e absorvidos pela rotina das pessoas. A existência de uma realidade virtual, vista como paralela à realidade até então conhecida, sentida e percebida, configura uma infinidade de novas possibilidades. O próprio significado da palavra “virtual” já nos dá boas dicas de como o espaço e o tempo se moldam nessa nova realidade que construímos e vemos ser construída diariamente com o desenvolvimento dos meios interativos.
Virtual:
- Algo que é apenas potencial ainda não realizado.
- Algo que não é físico, apenas conceitual.
- Algo que não é concreto. Virtual é tudo aquilo que não é palpável, geralmente alguma abstração de algo real.
- A simulação de algo.
Essa descrição foi encontrada na wikipedia, e acho que esse site é um bom exemplo para começarmos a análise.
A informação no espaço e tempo virtuais
A wikipedia é um projeto tão grandioso que não seria possível sem a nova configuração de espaço e tempo construída nos meios digitais. Na verdade ela não seria possível sem a ausência de espaço físico e sem a extinção do conceito de tempo que vieram com a consolidação da internet. A partir do momento em que a troca de informação não esbarra em questões físicas de espaço e de tempo e não depende deles para acontecer, o volume de informação gerada pôde ser administrada e reunida em um único espaço virtual. Claro, por aqueles que tinham os portais de acesso a esse ambiente virtual: os computadores conectados à grande rede.
No mesmo caminho, vemos a informação circulando por esse ambiente com uma velocidade assustadoramente alta (redução do tempo) e em um volume perigosamente gigantesco (redução do espaço). Digo “perigosamente” porque, dado o caráter democrático da internet e dada a facilidade em se tornar pública uma informação, qualquer computador conectado à rede passa a ser um gerador de conteúdo, quando controlado por um ser humano ou mesmo quando operado por uma inteligência por ele criada. E por isso novamente é preciso que o homem de adapte à essa nova realidade e passe a filtrar a informação consumida (gosto do pensamento da Luciana da diferença entre “aprender” e “apreender” a informação).
É interessante pensar em como esse armazenamento e troca de informações é feito hoje, em um ambiente virtual, e como era feito há algumas décadas, em bibliotecas, cartas e correio. A informação precisava ser fisicamente transportada ou armazenada para existir.
Hoje vemos diversos espaços virtuais sendo criados em diversas plataformas: games (no início em duas dimensões, depois em três e mais próximos do espaço físico como instintivamente o conhecemos), interfaces de softwares (que no início, para serem melhor compreendidas traziam – e ainda trazem – grandes metáforas com o mundo real), websites (que são uma representação dos espaços físicos de acesso a conteúdo), second life (a tentativa mais premeditada que tivemos nos últimos anos de tentar representar o mundo real em uma tela), realidade aumentada (e a fusão ilusória desses dois ambientes – digital e real), entre outras novidades que surgem a cada dia. A publicidade foi uma grande viabilizadora dessas iniciativas, que ajudaram fortemente a construirmos o conceito que temos hoje de virtualidade. Não nos surpreendemos mais com a existência de interfaces não naturais, com a interatividade, com a possibilidade de vivência em um ambiente totalmente digitalizado – e isso se deve em grande parte à capacidade biológica humana de se adaptar às inovações que o próprio homem produz.
O homem passa a aceitar melhor esse espaço e esse tempo relativos e a dominar a relação entre homem-virtualidade. Mas e com as outras pessoas, como fica?
Uma nova configuração nas relações interpessoais
O encurtamento de distâncias nas mídias interativas também ocorre nas simulações de redes sociais criadas por sites como orkut, facebook, twitter ou em plataformas como o celular e o computador. O hyperlink, um dos principais elementos de interação nesses ambientes, passa a conectar não apenas uma informação a outra, mas uma pessoa a outra.
Quando vemos o perfil de uma pessoa no orkut, estamos vendo a representação virtual da existência física daquela pessoa, montada através de palavras e imagens. A própria imagem é a comprovação visual da existência daquela pessoa, reduzida no instante da fotografia. O mesmo quando vemos o nome de uma pessoa nos contatos do celular: estamos tentando representar a existência daquela pessoa em um espaço virtual metaforizado. E, nos últimos anos, passamos a compreender essa relação físico-virtual com mais naturalidade.
Aos poucos as ferramentas online ajudam a criar uma linguagem universal de comunicação entre essas pessoas, derrubando barreiras geográficas e temporais de contato. Digitando algumas palavras e clicando em alguns hyperlinks eu consigo me aproximar virtualmente de pessoas que eu sequer conheci no mundo real. Mais uma vez é notável a capacidade humana de se adaptar a essa nova forma de comunicação e às novas relações interpessoais que se constróem nesses meios interativos. Meu primo de 8 anos não consegue imaginar que as pessoas antes se comunicavam por cartas, ou sequer entender o funcionamento de um telegrama. E isso, para mim, é incrível.
A recriação do espaço e do tempo
Os meios interativos passam por tentativas de recriar o espaço e o tempo em suas interfaces virtuais. Sites como o Google Maps, por exemplo, são a materialização (se é que podemos nos referir assim a um ambiente virtual) do espaço geográfico no virtual. Ou mesmo os grandes mapas mentais do VisualComplexity são uma forma de tentar mapear digitalmente as informações e representá-las em espaços mais próximos daquilo que a mente humana consegue compreender e visualizar. Existem ainda as tentativas de vincular esse espaço virtualizado a acontecimentos no tempo. Um bom exemplo é o site Twittearth, que mostra em tempo real as atualizações do twitter em um mapa 3D. Ou ainda o premiadíssimo The Whale Hunt, em que Jonathan Harris representa um dia de caça a baleias através de fotografias organizadas cronologicamente.
O homem passa a buscar formas criativas de transportar a realidade conhecida e absorvida biologicamente para uma segunda realidade virtual, aprendida nos últimos anos e passível de uma infinidade de explorações. As possibilidades técnicas dos meios interativos são exponenciais e continuam se desenvolvendo a cada dia. O que mais fascina é que os meios interativos podem ser eternamente reinventados, enquanto a representação nos ambientes físicos já se mostra de certa forma saturada e restritiva. Nos ambientes interativos, mais importante que a produção de novas representações do espaço e do tempo é a reflexão sobre sua função social e psíquica. A discussão é realmente extensa e merece reflexão.






















