“O corpo sempre foi objeto de estudo e representação nas práticas artísticas tradicionais. Quais as novidades colocadas no mundo da arte e sua interface com as novas tecnologias na forma de representação/discussão do corpóreo?”
Fiquei bastante interessado no assunto, e visitei alguns sites e trabalhos de artistas que lidam com a questão. A bioarte nos faz questionar alguns pontos bastante polêmicos sobre tecnologia e sobre o comportamento humano. Vivemos em uma sociedade bombardeada por padrões estéticos de beleza e saúde e estamos, em nossa maioria, sempre preocupados em pertencer a alguns desses padrões. A tecnologia possibilita intervenções em nosso corpo (cirúrgicas, cosméticas, químicas) em busca de modificações não-naturais em nossa aparência. Até que ponto esse tipo de interferência é saudável?
Além das questões estéticas, há a questão dos limites humanos que vão sendo superados a cada dia com o apoio de novas tecnologias. Fiquei imaginando como seria o texto do Manifesto Ciborgue, de Donna Haraway, caso fosse escrito hoje, na era mobile. Um dos argumentos do Manifesto é que simples aparelhos, como os óculos, são mecanismos tecnológicos que visam ampliar a capacidade natural do ser humano. Dessa forma, e de muitas outras, a tecnologia vem modificando a forma como o homem lida com sua natureza. Já não temos os mesmos instintos de outrora, já que muitas de nossas habilidades são dependentes de tais aparelhos.
Podemos considerar esse tipo de evolução uma evolução natural do ser humano? De certa forma, todas as evoluções da humanidade (inclusive tais aparatos tecnológicos) só são possíveis pela materialização da própria inteligência humana, habilidade natural da espécie. Será que atingimos tal ponto de maturidade biológica que passaremos a evoluir apenas tecnologicamente?
A arte, nesse, ponto, é um eloquente questionador dessa realidade. Dentre as obras de arte vistas em aula, percebi que em muitas delas o principal objetivo é o exercício reflexivo do quanto a tecnologia está influenciando nosso comportamento, hábito e rotina. Estamos nos transformando no que Lucia Santaella chama de seres “biocibernéticos” (Cultura tecnológica & corpo biocibernético):
“A consciência de um novo estatuto do corpo humano, que se ramifica crescentemente em variados sistemas de extensões tecnológicas, foi gradativamente emergindo até adquirir uma forma de expressão em atributos similares a este que escolhi empregar: ‘biocibernético’.”
Segundo a autora, a própria criação dos signos é um sintoma da evolução do neo-córtex humano, que passa a exigir um equilíbrio não apenas físico, mas psíquico dos seres da espécie. Ela chama essa nova era de “pós-biológica”, fazendo referência ao momento em que paramos de evoluir (ou ao menos de notar) biologicamente e passamos a construir outro tipo de evolução.
“Neste século, mais acentuadamente neste final de século, quando nossos corpos atingem um nível de plasticidade extrema e de dissolução de suas fronteiras físicas, sensíveis, cognitivas, não é de se estranhar que o corpo tenha se tornado o grande tema, foco, representação, objeto performático e objeto simulado das artes.”
Estou lendo mais sobre o assunto, mas confesso que fiquei bastante tempo refletindo sobre ele e sobre como será a realidade humana daqui a algumas décadas. E o principal: como será sua manifestação artística. Se continuarmos evoluindo enquanto seres pós-biológicos, imagino que o corpóreo ainda será assunto de manifestações artísticas por muitos e muitos anos.